Quando a Lua se Põe

Agosto 29 2008

 

Cada vez via menos e o meu ângulo de visão era cada vez menor. Em volta só via negro, e tinha um curto círculo redondo que correspondia à minha diminuta visão. Estou há cerca de 5 meses à espera da minha primeira consulta de oftalmologia no hospital público. As nossas dificuldades financeiras impedem-me de recorrer ao privado.
Eu trabalho como jardineiro da câmara e a minha mulher está desempregada. Temos dois filhos, de dez e oito anos, que são brilhantes alunos, e ambos herdaram as minhas melhores qualidades.
Sempre tive diabetes, desde que me lembro. Sou insulino-dependente e todos os dias tenho que me injectar. Toda a minha família sofre com isso, e agora ainda mais que estou quase cego.
O dia de hoje foi mais um daqueles. A minha pouca visão faz com que o meu trabalho fique mal feito, e de acordo com o meu patrão, arrisco-me a ser despedido. Só queria mesmo chegar a casa e dormir toda a noite descansado, e também a manhã, pois tenho folga todo o dia.
Acordei com a Rute, minha mulher, aos gritos.
Recebeste uma carta do hospital! Parece que é desta que te vão receber!
Abri-a com pressa e li o que dizia. Tinha consulta marcada para duas semanas depois, precisamente para o dia do casamento da minha irmã, e à mesma hora. Não me podia recusar, tinha mesmo de ir.
As duas semanas passaram e a minha vista piorou muito. Já muito pouco vejo e estou agora desempregado. Passo todo o dia em casa, deitado, e já nem posso conduzir. A Rute levou-me ao hospital e eu fui atendido por um atencioso médico que se preocupou muito comigo. Pena não ter podido ver a sua cara.
Foi-me diagnosticado um glaucoma, que me ia reduzindo a visão à medida que o tempo passava, provocado pela diabetes que sofria. Ao que parece uma dose de insulina por dia não era suficiente. Tinha de ser operado de urgência. A mesma urgência que tinham as cerca de cem pessoas que estavam à minha frente aguardando uma cirurgia. Teria de esperar pelo menos duas semanas. Mais duas dolorosas semanas.
Ainda consegui chegar a tempo do copo-de-água. A minha irmã e o meu cunhado estavam felicíssimos. A sua beleza resplandecia para além da minha limitada vista. Apesar de não poder ver grande parte do casamento, aproveitei-o como podia.
Chegando a casa, deitei-me. E assim permaneci durante as duas semanas para a cirurgia, pelo menos. Mas as duas semanas passaram e nenhum sinal do hospital. A minha mulher tentou saber se já estava marcada, mas nada obteve. E assim as semanas continuaram passando, sem ter notícias algumas, até eu atingir a cegueira total.
A minha vida tornou-se ainda mais monótona. Nada via e a escuridão apoderava-se da minha vista. Ouvi a Rute trazer-me o pequeno-almoço à cama, o que me animou o dia. Ela falava comigo, mas eu não a ouvia. Estava a habituar-me à ideia de estar cego, e sem a ajuda dela, tentava encontrar a comida. Pelo cheiro já sabia que era uma bela sandes de presunto e um copo com sumo de laranja.
Comi e voltei a deitar-me. Fiquei toda a manhã sentindo o cheiro de minha mulher na sua almofada, e isso dava-me prazer. Levantei-me de tarde e tentei ir até à cozinha aos apalpões. Estava sozinho em casa. A Rute já havia arranjado emprego numa loja de roupa e os miúdos estavam na escola. Cheguei à cozinha, mas sem saber o que fazer, voltei para o quarto.
E fiquei sentado. Consegui chegar ao comando e ligar a televisão. Em todo o lado davam programas de tarde com apresentadores de voz estridente. A minha audição agora apurada não os aguentava. Esperei pelos meus filhos, que haviam de chegar a qualquer momento.
Não tinha comido a sandes de presunto toda e aproveitei aquele momento para o fazer. Procurei pela mesa de cabeceira e lá a encontrei. Mas não tinha acabado de dar a primeira dentada quando ouvi abrir a porta de entrada. Esta fechou-se e depois o silêncio. Ouvi passos muito leves caminharem e a aproximarem-se da minha posição.
Levantei-me, tacteando tudo à minha frente. Seguindo até à porta do quarto, parei. A pessoa estava mesmo ali à minha frente. Os passos pararam e senti na face um respirar ofegado e quente. Senti um toque nas costas puxar-me para a frente. Reagi brutamente e contorci-me todo no chão, pontapeando.
Mas a voz acalmou-me. Era Rute, que chegara mais cedo do trabalho e queria fazer-me uma surpresa, mas só acabou por me assustar.
Então, não comeste o almoço que eu te deixei? Eu disse-te, mas não me deves ter ouvido. Sabes que eu fico muito preocupada ao deixar-te aqui sozinho?
Ainda não estava recomposto do susto, por isso sentei-me na cama e procurei pelo almoço que afinal me havia sido deixado. Não o encontrei, e foi a minha mulher que acabou por me colocar à frente. Eu não gostava que me dessem a comida à boca, pois fazia-me parecer incapacitado. O resto do dia correu normalmente, com a ajuda da minha mulher, claro.
No dia seguinte, não havia escola. Os funcionários públicos estavam de greve, e até calhou mesmo bem porque a Rute tinha de ir com o Xavier, o meu filho mais velho, ao médico, numa consulta marcada há muito. E eu fiquei em casa com o Francisco, o mais novo. Brincámos todo o dia, e mesmo estando assim como estou, consegui-lo fazer divertir-se. Até foi mais divertido do que das outras vezes que tínhamos brincado.
Senti-a chegar a casa. Mas não senti o ar contente com a sua chegada. Ela levou-me para o quarto e sentou-me na cama. Mesmo não sabendo como ela estava, não encontrei nada de erótico na cena. Rute dizia-me agora que depois do médico tinha passado pela farmácia e que tinha comprado as injecções de insulina a dobrar, não porque eu precisasse, mas porque o Xavier tinha, afinal, herdado algo mau de mim.
publicado por elrey às 00:20
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Agosto 20 2008

 

Era uma vez uma menina rica. Chamava-se Margarida, tinha cinco anos, e morava com os seus pais numa grande casa. Era uma vez uma menina que tinha tudo o que queria.
O seu quarto estava recheado de bonecas, casinhas, brinquedos pequenos, brinquedos grandes, e não havia nada naquele quarto que não tivesse sido ela a pedir. Os pais faziam-lhe todas as vontades, e bastava dizer “Eu quero” que era logo atendida.
Estava de férias da escola e já no fim do Verão ia entrar para o primeiro ano. Aquela manhã tinha sido passada a brincar, e ao almoço devia ter tido a companhia da mãe, mas esta não apareceu, ficando sozinha com Olga, a empregada. Passou a tarde novamente a brincar, mas depois da hora do lanche, sentou-se na sala esperando pelos pais, que deviam estar a chegar.
O primeiro a chegar foi o seu pai, mas ela nem olhou, e continuou aguardando por sua mãe. O tempo passava e continuava sentada nos antigos sofás castanhos do século XIX, à espera.
Eu quero a minha mãe. – Margarida pedia, em tom triste, ao pai.
Já estava na hora de jantar e Helena, a sua mãe, tardava a chegar. No momento em que ela fixa os seus olhos no alto candeeiro de pé que estava ao seu lado esquerdo, olhando como se nunca o tivesse visto, Paulo, seu pai, recebe um telefonema e sai sobressaltado.
Eu quero a minha mãe.
Margarida não jantou e continuava querendo a mãe. Era a primeira vez que pedia alguma coisa mas não a tinha. De tanto tempo sentada no sofá, acabou adormecendo. Olga não teve coragem de a levar para o seu quarto e saiu, deixando-a sozinha.
Paulo regressou já tarde e encontrou-a deitada na sala. Sentou-se a seu lado e deu-lhe um beijo na face, que a acordou de imediato.
Onde está a mãe? Eu quero a minha mãe!
A mãe... – Paulo baixa a cabeça – a mãe não volta mais. Foi para um local melhor.
Olhou fixamente para o seu pai, com os olhos bem abertos que nesse momento se começavam a encher de lágrimas. Ela corre para o quarto e só de lá saiu quando o quente sol da tarde entrou pela sua janela, dois dias depois. Paulo já não se encontrava em casa.
O ar estava saturado e Margarida mal conseguia respirar. Inspirava-se o luto, a saudade. Expirava-se a tristeza e a desgosto. Sua mãe tinha tido um grave acidente e o funeral era hoje. Seu pai voltava a casa nesse momento e preparavam-se já para sair para a igreja. Lá iria estar toda a sua família.
As velas eram a única iluminação do espaço. Pessoas da sua família mas que pouco conhecia encontravam-se sentadas e a chorar. Colocou-se junto ao caixão e chorou. Chorou ao ver a mãe morta. Chorou ao ver os outros chorar. Mas chorou ainda mais quando deixou de ver seu pai. Ficou sozinha, olhando para todos os lados, soltando lágrimas de desespero.
Sem saber para onde ir, sentou-se nas escadas da igreja e ali ficou, até sair o funeral e todos se irem embora. Seguiu a marcha funerária até ao cemitério, e após a mãe ser sepultada, ficou novamente sozinha, mas agora com a companhia da mãe.
Deitou-se sobre a sua campa e ali dormiu toda a noite, até uma última lágrima cair sobre a fria pedra do chão, e, quando a Lua se pôs, tudo escureceu e apenas a estrela de sua mãe ali ficou para a iluminar.

 

publicado por elrey às 01:14
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Porque quando a Lua se põe, tudo escurece e restam apenas ínfimos pontinhos brancos para nos iluminar. [Avisam-se os mais distraídos que todos os textos aqui publicados são pura ficção, incluindo os que se encontram na 1ª pessoa. Obrigado]
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