Quando a Lua se Põe

Agosto 20 2008

 

Era uma vez uma menina rica. Chamava-se Margarida, tinha cinco anos, e morava com os seus pais numa grande casa. Era uma vez uma menina que tinha tudo o que queria.
O seu quarto estava recheado de bonecas, casinhas, brinquedos pequenos, brinquedos grandes, e não havia nada naquele quarto que não tivesse sido ela a pedir. Os pais faziam-lhe todas as vontades, e bastava dizer “Eu quero” que era logo atendida.
Estava de férias da escola e já no fim do Verão ia entrar para o primeiro ano. Aquela manhã tinha sido passada a brincar, e ao almoço devia ter tido a companhia da mãe, mas esta não apareceu, ficando sozinha com Olga, a empregada. Passou a tarde novamente a brincar, mas depois da hora do lanche, sentou-se na sala esperando pelos pais, que deviam estar a chegar.
O primeiro a chegar foi o seu pai, mas ela nem olhou, e continuou aguardando por sua mãe. O tempo passava e continuava sentada nos antigos sofás castanhos do século XIX, à espera.
Eu quero a minha mãe. – Margarida pedia, em tom triste, ao pai.
Já estava na hora de jantar e Helena, a sua mãe, tardava a chegar. No momento em que ela fixa os seus olhos no alto candeeiro de pé que estava ao seu lado esquerdo, olhando como se nunca o tivesse visto, Paulo, seu pai, recebe um telefonema e sai sobressaltado.
Eu quero a minha mãe.
Margarida não jantou e continuava querendo a mãe. Era a primeira vez que pedia alguma coisa mas não a tinha. De tanto tempo sentada no sofá, acabou adormecendo. Olga não teve coragem de a levar para o seu quarto e saiu, deixando-a sozinha.
Paulo regressou já tarde e encontrou-a deitada na sala. Sentou-se a seu lado e deu-lhe um beijo na face, que a acordou de imediato.
Onde está a mãe? Eu quero a minha mãe!
A mãe... – Paulo baixa a cabeça – a mãe não volta mais. Foi para um local melhor.
Olhou fixamente para o seu pai, com os olhos bem abertos que nesse momento se começavam a encher de lágrimas. Ela corre para o quarto e só de lá saiu quando o quente sol da tarde entrou pela sua janela, dois dias depois. Paulo já não se encontrava em casa.
O ar estava saturado e Margarida mal conseguia respirar. Inspirava-se o luto, a saudade. Expirava-se a tristeza e a desgosto. Sua mãe tinha tido um grave acidente e o funeral era hoje. Seu pai voltava a casa nesse momento e preparavam-se já para sair para a igreja. Lá iria estar toda a sua família.
As velas eram a única iluminação do espaço. Pessoas da sua família mas que pouco conhecia encontravam-se sentadas e a chorar. Colocou-se junto ao caixão e chorou. Chorou ao ver a mãe morta. Chorou ao ver os outros chorar. Mas chorou ainda mais quando deixou de ver seu pai. Ficou sozinha, olhando para todos os lados, soltando lágrimas de desespero.
Sem saber para onde ir, sentou-se nas escadas da igreja e ali ficou, até sair o funeral e todos se irem embora. Seguiu a marcha funerária até ao cemitério, e após a mãe ser sepultada, ficou novamente sozinha, mas agora com a companhia da mãe.
Deitou-se sobre a sua campa e ali dormiu toda a noite, até uma última lágrima cair sobre a fria pedra do chão, e, quando a Lua se pôs, tudo escureceu e apenas a estrela de sua mãe ali ficou para a iluminar.

 

publicado por elrey às 01:14
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Porque quando a Lua se põe, tudo escurece e restam apenas ínfimos pontinhos brancos para nos iluminar. [Avisam-se os mais distraídos que todos os textos aqui publicados são pura ficção, incluindo os que se encontram na 1ª pessoa. Obrigado]
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