Quando a Lua se Põe

Dezembro 02 2009

 Chegando a casa fui directamente à sala e virei-me de frente para a janela, e sentado fiquei observando quem passava, à procura de uma forma de me abstrair das mágoas da minha própria vida. Morava sozinho numa casa térrea e pequena, tal como todas as outras da zona. E a minha rua era muito movimentada. Todos os dias por lá passavam centenas de pessoas a pé e de carro, indo e voltando dos trabalhos, e mesmo aqueles que nada faziam roubavam algum do seu inutilizado tempo para passar por aqui.

Aquela rua era como um pequeno mundo. Desde grandes casos de amor a grandes tragédias, já tudo tinha acontecido, e aquele dia parecia mais um dos muitos que se repetiam continuamente. Desde há algum tempo que nada de extraordinário lá acontecia, mas embora aquele dia parecesse mais um daqueles, adivinhavam-se surpresas. O rapaz da mercearia já havia passado várias vezes junto à minha janela, apressado e com cara de caso. A Dona Josefina, que é sempre muito simpática, passou por mim com tanta pressa que nem me viu.

Não sabia minimamente o que se passava, dado ao curto ângulo de visão da minha janela. Era comprida e baixa, de forma a responder às minhas necessidades, mas a porção de rua que eu podia ver era muito pouca, comparado com a sua imensidão. Até minha mãe, ignorando-me, passou por mim com um comportamento idêntico aos restantes.

Tinha decidido ir à rua, mas faltava-me a coragem. A dificuldade do caminho impedia-me de o fazer muitas vezes repetindo, por isso, esta actividade de estar à janela todas as tardes. Mas eu tinha de saber o que se passava. À primeira pessoa conhecida que pela minha janela passou, abri-a e perguntei o que estava a acontecer, porque é que todos estavam tão preocupados.

Não te preocupes, não é nada de mais.

Fiquei na mesma. Mas tentando-me esticar e espreitar o resto da rua, vi um grande ajuntamento de pessoas em volta da barbearia do Senhor Olívio, incluindo as que haviam passado por mim sem me falar. Decidi então agir, e enchendo-me de coragem dirigi-me até à entrada e abri com dificuldade a porta emperrada. Saí e respirei o saturado e suado ar da rua.

Dirigindo-me até à barbearia, todos olharam para mim e baixaram a cabeça. Tentei penetrar pela barreira da multidão de forma a saber o que se passava, ainda incomodando e até magoando algumas pessoas, mas consegui entrar na loja. Estava deserta. O senhor Olívio estava sentado numa das cadeiras, com a cabeça pendida, inconsciente. Era ele o alvo das atenções, e ninguém sabia se estava vivo ou se estava morto, mas também era capaz de entrar na barbearia. Aproximei-me e, mesmo não entendendo nada do assunto, concluí que ainda respirava e tinha pulsação.

A partir dessa altura, todos se aproximaram e alguém chamou a ambulância. Ficámos todos junto a ele, esperando pela ajuda médica, e quando esta chegou e o senhor Olívio foi levado, tudo se acalmou. As pessoas começaram a dispersar e a rua começou a voltar ao normal. Mas havia uma coisa que me intrigava: porque é que andavam todos tão preocupados mas ninguém se aproximou do barbeiro? Nunca ficaria a saber.

Olívio sobreviveu e continuou a sua vida normal de barbeiro. A rua continuava na mesma, e eu continuava a observá-la pela janela. Mas um dia fui interrompido pela campainha. Na minha casa a campainha nunca tocava, pois as únicas pessoas que lá entravam era eu e a minha mãe, já idosa, que tinha a chave. Abri, e não foi a minha surpresa quando vi o senhor Olívio.

Venho agradecer-te o que fizeste por mim.

Não deixei de me sentir lisonjeado. Convidei-o para entrar e conversámos toda a tarde. Nunca tinha tido grandes conversas com ele, e acabei por descobrir que, ao contrário do que demonstrava no local de trabalho, até era uma pessoa divertida. Nasceu assim uma grande amizade. E era mesmo de amizades que eu estava a precisar, pois quando estou sozinho a pensar, a única coisa que me vem à cabeça é o acidente que me pôs nesta cadeira de rodas.

publicado por elrey às 22:48
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Porque quando a Lua se põe, tudo escurece e restam apenas ínfimos pontinhos brancos para nos iluminar. [Avisam-se os mais distraídos que todos os textos aqui publicados são pura ficção, incluindo os que se encontram na 1ª pessoa. Obrigado]
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