Quando a Lua se Põe

Setembro 13 2008

 

Para Yuri, a vida estava correndo bem em Portugal. Tinha vindo da Rússia sozinho para estabilizar a sua vida, mas toda a família havia ficado na terra natal. Vestiu-se com a habitual farda de trabalho, uns trapos sujos e rotos, e saiu de casa.
Chegou à obra onde trabalhava, em que era pedreiro, e o seu mestre-de-obras esperava por ele. Subiu até ao andar que lhe competia, o décimo e continuou o que havia deixado por fazer no dia anterior. Até à hora de almoço mais ninguém haveria de subir ao seu piso, o mais alto até ao momento.
Sentiu uma presença atrás de si. Olhou mas ninguém viu. Continuou trabalhando, mas alguém lhe toca no ombro e Yuri assusta-se. Salta para trás e fica à beira da queda. Um homem todo vestido de preto apresentava-se à sua frente. Estava pálido e aproximava-se do pedreiro sem dizer uma única palavra.
O homem encostou a sua boca ao ouvido do russo e sussurrou. Momentos depois Yuri chega-se para trás, tropeça num ferro e cai até encontrar terra firme. Lá em cima, o outro desvanecia-se, após fazer o sinal da cruz.
Duarte fazia aquilo todos os dias. E o seu trabalho era simples: todos os dias percorria o país anunciando as pessoas dos seus últimos segundos de vida. Morrera há cinco anos e desde aí que lhe competia a função de Morte. O anúncio da morte.
Sara saía do trabalho. Tal como fazia todos os dias, entrou no carro e andou algumas centenas de metros até ao centro comercial onde ia fazer as compras do dia. De volta com os sacos, voltou a entrar para o seu veículo. Mas sentiu-o frio. O dia estava quente, mas o interior do seu automóvel estava frio.
Duarte está sentado no banco traseiro. Não olha para Sara e ela não o vê. Seguindo caminho para casa, ainda tinha de apanhar a auto-estrada, pelo que conduzia rapidamente.
A condutora sentiu uma mão no seu ombro. Trava bruscamente e derrapa no asfalto. Fica parada na estrada, a olhar para trás, mas não está lá ninguém. Prossegue a marcha assustada, e começa a olhar mais vezes pelo espelho interior.
Já seguia na auto-estrada e estava esquecida do que havia acontecido. Mas ao olhar novamente pelo espelho, uns olhos negros carregados fizeram-na travar novamente. Os olhos não lhe eram desconhecidos. Aliás, eram conhecidos demais. Era Duarte, o seu marido que morrera há cinco anos.
Ele passa para o banco da frente. Sara é obrigada a avançar pelo trânsito, mas não tirou os olhos do defunto. Conseguia conduzir sem olhar para a frente, pois estava-o mirando fixamente. A mesma reacção teve ele. E ficaram-se fitando durante alguns minutos. Mas ela continuava conduzindo, como que movida por uma força maior.
Sara regressa à realidade e retorna na condução. Duarte continuava a olhá-la, sem pronunciar uma única palavra, acabando depois por quebrar o silêncio.
Não queres saber porque é que eu estou aqui?
Tu não estás aqui. Eu estou sozinha neste carro. – convencia-se ela – Tu morreste e não podes estar aqui, sou eu que estou a alucinar.
Vais morrer agora mesmo.
Sara deu uma guinada e quase embatia num carro que seguia à sua frente.
Mas eu sou... fui... era a tua mulher! Não me podes fazer isto!
Não sabes o que me custa, mas não sou eu que escolho quem morre. Só tenho o poder de anunciar e certificar-me que o trabalho fica feito.
Duarte não conseguia reagir. Não conseguia concluir o acto final que ditaria a morte da mulher. Mas tinha de ser.
Os travões deixaram de funcionar e o volante tornou-se leve demais. Sara queria conduzir direito mas não conseguia. Nada respondia e ela estava nas mãos do carro. Começou a voltar o volante para ambos os lados, sem resposta. Até que o volante respondeu. O automóvel virou completamente para a direita e voa sobre os vales. Embate na terra dura, longe da estrada.
                                                                                                
2 anos antes, Sara saía de casa e dirigia-se a pé para o centro de emprego, mas é interceptada por Duarte.
O que é que fazes aqui? Estás proibido de te aproximar de mim, ou não sabes que a tua doença é perigosa? Pensava que ainda estavas no hospital.
Dizem que estou curado. Preciso de falar contigo.
Dirigem-se os dois para um beco ali perto. Duarte, no seu estado normal, saca de uma navalha e espeta no abdómen da ainda sua mulher, e foge.
 
O carro continuava no vale, duas horas após se ter despistado. Ninguém o via e lá dentro permaneciam os ocupantes. Glória, a condutora do carro e Duarte, um doente psiquiátrico com uma dupla personalidade que tinha alucinações, nascida há cinco anos atrás que fez com que fosse internado e dado como morto para muita gente.
publicado por elrey às 17:33

hum... Gostei.

tem um final inesperado

mas sinceramente, porquê que o Russo morreu!!!

lol

Pegadas no Desconhecido a 16 de Setembro de 2008 às 18:54

Porque quando a Lua se põe, tudo escurece e restam apenas ínfimos pontinhos brancos para nos iluminar. [Avisam-se os mais distraídos que todos os textos aqui publicados são pura ficção, incluindo os que se encontram na 1ª pessoa. Obrigado]
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