Quando a Lua se Põe

Setembro 08 2008

 

O fumo cinzento, contrastado com o incolor ar da rua, era cortado pelo autocarro nº32, que seguia quase vazio, vindo do Ribatejo. De dentro saiu apenas uma pessoa. Rafael Pires vinha da singela aldeia da Correlheira, e procurava uma nova vida na capital, junto da irmã, que já lá estava há dois anos. Não conhecia mais ninguém nem nunca tinha estado em Lisboa.
Olhou para tudo o que tinha de olhar, e seguiu caminho sem saber para onde ia. O que ele sabia é que tinha de ir para o hotel onde estava Sílvia, sua irmã. Mas as pessoas mostravam-se antipáticas. Tentou perguntar a uma senhora sentada no banco da avenida, mas esta reagiu violentamente e Rafael ganhou uma ferida na testa. Perguntando a um rapaz novo o caminho para o hotel, ficou apenas sabendo o caminho do pé dele ao seu traseiro.
Já quase a desistir e após ter percorrido quilómetros naquela avenida, olha em frente e vê, em grandes letras azuis suspensas por ferros ferrugentos no topo de um alto prédio, o nome do hotel por que procurava. Nem precisou de andar muitos metros para chegar à porta do edifício, perguntar por Sílvia, subir as grandes escadarias de madeira de carvalho que o levavam ao 1º andar onde se encontrava a sua irmã e aconchegar-se confortavelmente na cama dela.
Ela estava saindo do banho e ele pôde, pela primeira vez, observar quase totalmente o seu esbelto corpo, resultado das rigorosas dietas feitas na capital. Sílvia havia saído da sua aldeia para estudar Nutrição e Alimentação. Rafael recordava-se dela sempre como uma rapariga gorda, sempre gozada por todos. Para ele, ela havia sido sempre uma irmã mais velha a quem, no capítulo da alimentação, nunca devia seguir o exemplo. Mas o seu corpo agora encontrava-se perfeitamente definido e era alvo de cobiça e inveja.
Ao vê-la sair do banho, Rafael, completamente suado, correu para o duche e refrescou-se com muito prazer. Aproveitou as massagens que a banheira do luxuoso hotel oferecia, e relaxou durante meia hora enquanto Sílvia se preparava para sair. Desde que tinha chegado, ainda não tinham dirigido a palavra. O cheiro a suor de Rafael quando chegou era tal que a irmã quando o viu fez apenas uma careta e um sinal apontando a casa de banho.
Após se terem os dois preparado para ir jantar, saíram e começaram aí a conversar sobre tudo. O que o mais indignava era onde é que ela ia buscar dinheiro para pagar a conta do hotel, que devia ser dos mais caros da cidade. Não obteve resposta.
Jantaram no restaurante do hotel, e só aí é que Sílvia ficou a saber as razões que levaram o irmão a vir para a capital. Vinha apenas em busca de novos ares, novas pessoas. Não procurava continuar os estudos, pois nunca tinha sido muito bom aluno, procurava sim libertar-se da sua aldeia envelhecida. Foi no restaurante que ele ficou a conhecer o que passaria a ser o seu único amigo em Lisboa. Chamava-se Rodrigo e era empregado do bar do hotel. Fora-lhe apresentado pela sua irmã, que parecia já ter uma relação muito íntima com ele.
Os meses passaram e Rafael intensificou a ligação que tinha com Rodrigo. Tornaram-se grandes amigos, e eram sobretudo os grandes companheiros nas noitadas. Mas, em certas noites, o empregado do hotel parecia ter atitudes estranhas para com ele. Chegava a sair de um local a meio da noite, sem dizer nada, após receber um telefonema.
Mas começava a tornar-se frequente demais.
Rodrigo e Rafael estavam sozinhos no quarto de Sílvia. Esta encontrava-se na universidade, e os amigos estavam combinando todo o plano para a noite. Rodrigo é chamado à recepção e Rafael aproveita o momento para descansar um pouco. Mas um telefone toca e não é o dele. O amigo havia-se esquecido do telemóvel, mas como vê no visor o nome de sua irmã, atende de imediato.
Estou, Rodrigo? Olha, preciso urgentemente que me venhas buscar aqui à casa do Bruno. Ele insiste em não pagar e eu quero que lhe dês uma tareia. – o telefone desliga-se imediatamente sem Rafael ter tempo de pronunciar nenhuma palavra.
Sabia quem era Bruno. Já se havia cruzado com ele algumas vezes e já ouvira Rodrigo dizer a Sílvia onde era a casa dele. Pegou nas suas coisas e saiu.
 Agora já conhecia bem as ruas de Lisboa. Sem saber nada do assunto que o levava a fazer aquela viagem, percorreu todo o caminho de memória, pois nunca o tinha feito, seguindo-se apenas pelas indicações que se lembrava de ter ouvido pelo amigo.
Chegou a uma casa térrea e antiga, perto do Chiado. Tinha a fachada em azulejo verde e a porta de entrada castanha, com ferros pintados de branco. Da rua conseguia ouvir gritos vindos de dentro. A voz era-lhe muito familiar.
Bate à porta com receio. Esta é aberta rapidamente e a Rafael surge a imagem de sua irmã, quase nua e despenteada. O batom de sua boca estava borrado e os saltos altos dos seus sapatos estavam partidos. A Sílvia não sobrou nenhuma reacção e, levantando o top descaído, sai a correr pela rua fora, com a mala na mão. Bruno olha para Rafael e encolhe os ombros.
Caminhando pelas ruas de Lisboa com a cabeça em baixo, o rapaz pensou no que faria a seguir. Seguido pelo instinto, segue até a estação dos comboios, e compra um bilhete para a estação mais próxima da Correlheira.
 
 
As verdes colinas e o azul do céu contrastavam com o escuro e sombrio ambiente no comboio. Rafael seguia para sua casa, e bem no fundo, sentia-se contente por rever a família. Não pensava muito, para não se lembrar do triste acontecimento que presenciou na capital. Não mais viu a irmã nem Rodrigo, nem eles o tinham tentado contactar. A viagem já seguia longa, e nunca tinha estado tão ansioso por ver os pais, nem nunca esperara ter tantas saudades da sua aldeia.
O comboio parou e, sem perder tempo, sai da estação e vai apanhar um autocarro para a Correlheira. Para seu espanto, o motorista não sabia onde ficava, e aparentemente havia sido retirada do mapa das carreiras. Seguiu para a localidade mais próxima, e daí podia seguir a pé. Na zona predominava cada vez menos o verde e cada vez mais o branco das construções. Havia cada vez menos agricultores e cada vez mais empresários e lojistas. Mas no meio de tanta construção, a paragem de Rafael era num local completamente isolado. O único desenvolvimento do local era a estrada por onde ele tinha seguido. Conhecendo os caminhos como ninguém, segue a estrada e vai pelo local correcto que ia ter à Correlheira.
Chegando onde começaria a sua aldeia, não vê nada para além de arbusto. Arbusto, ervas secas e pó, muito pó entranhado no chão e no ar que imediatamente se pegou à sua pele. A antiga placa que sinalizava o início da localidade fora arrancada e haviam ficado os dois ferros, já ferrugentos, que o fizeram lembrar o momento em que chegara a Lisboa.
Das casas restavam apenas as paredes exteriores. Já não havia telhados e as ruas estavam repletas de cobras mortas e ratos. Ele estivera fora poucos meses. “Como foi isto acontecer?”, questionou-se. Mas nesse momento ouve um som melódico. Parecia uma flauta. Mas quando se mexia, o som parava. Precisava de estar parado alguns momentos para o som recomeçar. Assim seria difícil descobrir a sua origem.
Havia uma casa que parecia manter-se intacta. Estava mesmo à sua frente e não se conseguia lembrar de quem seria. Era toda em pedra e as telhas eram fortes e grandes. Aproximou-se. Procurou por algo. Inspirou o sujo e quente ar que rondava a casa. E alguém abre a porta.
Uma velha e áspera mão soltava à vista pois era a única que a idosa tinha. E apesar de Rafael ter vivido naquela aldeia durante toda a sua vida até ter partido para Lisboa, ele não se recordava daquela cara nem de nenhuma senhora sem uma mão.
Não queres entrar filho?
Ele aceitou, após de recear um pouco. A casa por dentro estava perfeitamente intacta. Aliás, a casa estava muito melhor do que as restantes casas costumavam ser. Uma entrada fabulosa, digna de uma grande mansão, seguida de uma sala enorme acompanhada de uma lareira digna de um rei. Bem perto podia-se ver uma banheira de hidromassagem. Mas não foi aí que Rafael centrou a sua atenção. Uma pequena flauta antiga estava pousada sobre uma mesa. Seria esse o som que tinha ouvido quando estava na rua observando.
A senhora era muito simpática. Pediu-lhe para se sentar e ofereceu um chá. E começaram a conversar, mas tinha de começar pela questão que mais fazia a ele próprio nos últimos momentos.
O que é que aconteceu a toda a gente? Onde está a minha família?
Olha filho, a isso eu não te sei explicar. Eu tenho um grande problema neurológico que me impede de ter recordações longas. Só tenho lembranças de há cerca de um mês, no máximo. Pelo que sei sou a única moradora aqui.
Rafael mostrava-se preocupado com a senhora. Nem sabia o nome dela, mas já sentia por si uma grande afinidade. Como já estava a anoitecer, decidiu sair para aproveitar a última luz do dia para investigar.
O pó da rua parecia aumentar à medida que o tempo passava. Tornava-se assim mais difícil caminhar sozinho, mas mesmo assim conseguiu encontrar a sua casa.
Estava completamente assolada. Restavam apenas as paredes mais resistentes, que estavam repletas de poeira. Na porta, que ainda se mantinha intacta, estava um papel branco com uma cruz negra. Já muito nervoso, Rafael corre para o cemitério.
Nunca ele tinha visto aquele cemitério tão cheio de campas. Todas elas eram térreas, e facilmente encontrou as que ele mais esperava não encontrar. “À memória da família Pires, que será recordada como todas as outras pelos que cá ficaram”. Seguido desta citação estavam os nomes dos elementos de toda a família: os seus pais, os seus dois irmãos mais novos, de dez e oito anos, e a sua avó. Todos tinham sido sepultados juntamente.
Rafael estava cada vez mais nervoso. Em busca de um lugar para ficar, acaba por dormir na sumptuosa casa da senhora maneta. Não ficou a saber o seu nome. Dormiu numa cama grande, repleta de almofadas e a madeira de torneados trabalhados. Mas não chegou a adormecer. Passou toda a noite acordado pensando no que tinha visto.
Acordou com a mulher maneta levando-lhe um café quente à cama. Já desperto, levantou-se e prepara-se para sair. “Preciso de saber mesmo o que se passou”, foi o que disse à idosa.
O pó na rua era cada vez maior. Passado um minuto de exposição, os seus olhos lacrimejavam, mas não só de irritação à poeira, mas também da mágoa de toda a sua aldeia estar destruída. O pó era tal que nem viu alguém passar atrás de si. Momentos depois, a maneta chama por ele.
Uma carta tinha-lhe sido enviada. Sem saber como o podiam ter encontrado ali, abre o envelope. O pozinho que ainda residia nos seus olhos impediu-o de conseguir ler. Pediu à sua anfitriã para o fazer.
Informamos o Sr. Rafael [nome censurado] do falecimento da irmã, Sílvia [idem], no dia 12 de Abril de 2008, pelas 11 e 20 da manhã, no Hospital de Santa Maria, vítima de paragem cardio-respiratória, consequente de um atropelamento. Declara-se assim informado o único familiar próximo da falecida.”
Rafael nem queria acreditar. A irmã tinha sido atropelada mesmo após se ter encontrado com ele. Ele havia-a ignorado e agora ela tinha morrido. Decide sair outra vez à rua, mas o pó era ainda mais. Desta vez é que estava mesmo tudo imperceptível. Queria chorar e não conseguia. A sua depressão aumentava e voltou a entrar em casa, e deparando-se com um cenário magnífico. A parede oposta da sala era completa de vidros, que davam para uma fantástica paisagem. Nunca tinha reparado naquele local maravilhoso no tempo que lá esteve. Procurando a saída para o local, apercebe-se também que lá não havia nenhuma poeira.
O cenário era de facto fabuloso. À sua frente estava uma cascata que dava a um grande lago lá em baixo. As rochas preenchiam uma ravina mesmo abaixo dele. Todo o espaço era também ocupado por árvores, arbustos e ervas. Estava numa floresta, de facto, e podia respirar o ar puro da natureza. Olha para trás e vê o mesmo. Uma floresta interminável. A casa havia desaparecido, e inconscientemente Rafael estava contente por isso. Pertencia agora à natureza e nada mais, e sentia-se infinitamente alegre.
Mas para pertencer totalmente à natureza faltava-lhe uma coisa. Fazer mesmo parte dela. Chegando-se à frente e inclinando-se na ravina, ficou à beira do abismo. Mas continuava feliz e sabendo onde estava, deu um passo em frente. Respirou fundo na queda e embateu sobre a água com uma força fatal, mas com um sorriso na cara.
 
 
Epílogo
Com a sua única mão, ela arrumava as suas coisas. A flauta antiga, sua grande aliada, fora enterrada para sempre e Isilda, assim se chamava, vestia a sua melhor roupa para partir para um mundo melhor. Com um sentimento de dever cumprido, deita-se na cama e espera que a morte a venha buscar, e espera também que a aldeia da Correlheira não tenha deixado descendências, pois teria de recomeçar tudo de novo.
 

 

publicado por elrey às 00:15

Porque quando a Lua se põe, tudo escurece e restam apenas ínfimos pontinhos brancos para nos iluminar. [Avisam-se os mais distraídos que todos os textos aqui publicados são pura ficção, incluindo os que se encontram na 1ª pessoa. Obrigado]
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