Quando a Lua se Põe

Setembro 05 2008

 

Paulo chegava a casa. Tinha voltado da escola, e vinha com muitas novidades para contar à mãe, que esperava por ele na sala. O pai estava fora, em viagem, e não voltava tão cedo. Fazia agora companhia à sua progenitora.
Moravam num apartamento magnífico. Situava-se no centro da cidade, com vista para o mar e era rodeada por prédios igualmente fantásticos. O deles tinha as paredes exteriores pintadas de amarelo-torrado, com grandes janelas de vidros reflectores e brilhantes.
Enquanto falava com a sua mãe, Verónica, sobre o seu dia de aulas, alguém tocou à porta. Paulo levanta-se rapidamente do sofá, dirige-se à entrada e abre a porta sem sequer espreitar nem perguntar quem seria. No momento que a destranca, esta é empurrada com toda a força para a frente embatendo violentamente na face do rapaz. Três homens encapuzados entraram dentro da casa, rendendo imediatamente Verónica com pistolas e facas.
Os indivíduos encaminharam mãe e filho até ao quarto deste, fechando-os lá dentro enquanto esquadrinhavam todos os cantos da casa. Fechados no quarto e sem qualquer comunicação com o exterior, Verónica e Paulo desesperavam. Ele matutava, imaginando uma forma de saírem dali ilesos. O telefone não podiam usar pois essa foi a primeira precaução dos assaltantes: desligá-lo. Os telemóveis tinham sido deixados na sala. Provavelmente os assaltantes já os teriam guardado. Não podiam sair pela janela pois moravam no 10º andar.
Nenhum dos dois sabia qual a verdadeira intenção dos assaltantes. Passados alguns minutos, um deles, com a cabeça destapada, foi ao quarto buscar Verónica e levou-a sem abrir a boca. Voltou a trancar a porta. Paulo ficava agora sozinho, ouvindo apenas os ruídos vindos da sala. Passado algum tempo, ouve um grande grito da mãe e um tiro logo de seguida. Esperando uns segundos, ouve outros cinco tiros seguidos, disparados sem piedade. E tudo se cala.
Passadas três horas, Paulo continua sem ouvir nenhum som vindo do exterior. Deverão ter-se ido embora. Mas onde estaria a sua mãe? Tenta arrombar a porta, mas não consegue devido aos seus frágeis dez anos. Tendo herdado a inteligência da mãe, consegue abrir a porta com um clipe e sai a toda a velocidade para a sala, onde não vê absolutamente nada. Tudo estava normal, como se ali nada tivesse acontecido.
Procura por toda a casa algum sinal de presença, mas tudo está como estava. Pesquisa por algum ínfimo pormenor deixado por quem ali tinha estado, mas nada encontra. Tenta abrir a porta que o leva ao exterior, mas esta encontra-se fechada. Já desesperado, procura pela chave dessa porta por todos os cantos da casa, mas não a encontra em lado nenhum. Decide relaxar e senta-se no sofá pensando e fazendo o tempo passar.
As horas passavam e já era de noite. Paulo havia adormecido e na casa reinava um profundo silêncio apenas interrompido pelo jovial ressonar do jovem. Pelas janelas entrava a rara luz da noite fria de Inverno, e a sala passava a respirar o nervoso ar do rapaz que agora acordava. Levantou-se repentinamente e foi verificar, sem sucesso, se a porta de entrada abria.
Encontrava-se sozinho. Era só ele e a escuridão, par a par, ambos esperando que uma nova e brilhante luz os iluminasse. Voltou a adormecer na sala, sendo acordado apenas na manhã seguinte pelo alegre cantar dos pássaros. Havia sonhado o momento mais marcante da sua vida: o dia em que teve o acidente de carro que o pôs entre a vida e a morte.
Estavam numa auto-estrada grande e aparentemente sem fim. Era de noite e circulavam muito poucos carros. Paulo mantivera-se acordado, olhando fixamente para o asfalto, não lhe escapando um único pormenor do que lá passava. Mas não tão atento estava o pai, que não vendo com antecedência um cão que se atravessava naquele momento, este fá-lo virar bruscamente o carro e atirá-lo para fora da estrada, capotando repetidamente.
Voltando à realidade, sentou-se e ficou na mesma posição por um momento. Pensava no que havia de fazer, mas quando esperava que nada o faria voltar à realidade, a porta abre-se. Um clarão encadeou-o impedindo de ver quem entrava. O vulto não lhe era desconhecido: era seu pai!
Havia voltado mais cedo da viagem e estava alegre. Mas a sua alegria terminou ao saber do sucedido. O pai, Fernando, havia decidido ir à polícia. Preparam-se para sair, mas a porta estava novamente trancada. Fernando procurou pelas chaves com que a tinha aberto, mas estas haviam desaparecido. O seu porta-chaves continha-as todas, menos a da porta de entrada. As suas pernas fraquejaram e sentou-se no chão. Paulo voltou à sala, mas Fernando ficou imóvel durante vários minutos. Voltou ao sofá passados momentos, mas pai e filho não voltaram a dirigir a palavra.
Voltava a anoitecer, e ambos haviam ficado calados durante todo o dia. Mantiveram-se sentados, olhando para um ponto fixo da parede colorida da sala. A televisão tinha ficado desligada e o assunto do pensamento dos parentes havia sido comum: nada. Não pensaram em nada, mantendo a mente aberta e isolada. E embalados pelo escuro, adormeceram na posição que tinham adoptado todo o dia.
Paulo foi novamente acordado pelo cantar dos pássaros. Por esta altura já se encontrava deitado no verde tapete da sala e seu pai mantinha-se precisamente como havia adormecido, sentado e direito, já com os olhos abertos, olhando o infinito. Não se apercebeu do levantar de Paulo. O seu pensamento estava, desde que tinha acordado, no acidente que a família tivera há quatro anos atrás.
O carro estava voltado ao contrário e deitava fumo livremente. Fernando era o único que se mantinha consciente. Olhando em redor, viu a sua família sem reacção e esvaídos em sangue. Prevendo que o carro iria explodir, tenta tirar a mulher e o filho do carro, mas sem sucesso. Verónica acorda, e olha assustada para o marido. Olham-se apaixonadamente e, como que involuntariamente e com muita calma, conseguem ambos tirar os seus cintos e sair do carro, que já se encontrava em chamas. Abraçam-se, mas Paulo continuava lá dentro. Verónica reage impulsivamente.
À frente de Fernando surge um copo. Tirando finalmente os olhos da parede, olha para o filho e aceita a água que este oferece. Bebe-a e volta ao presente. Trocam olhares de cumplicidade e confiança, e dão a mão apertando com força sem desviarem o olhar por um momento.
Ouvem correr nas escadas. Sem tempo de reacção, alguém abre a porta da casa e entra fechando-a apressadamente. Era Verónica. Paulo corre para os seus braços, mas Fernando vai directamente à entrada. A porta estava novamente fechada. A chave com que Verónica tinha aberto a porta naquele momento desaparecera da sua mão.
Onde estiveste? – pergunta Paulo.
Não sei – Verónica mostrava-se assustada – Fui levada para um armazém escuro, e agora deixaram-me aqui à porta de casa sem me terem dito uma única palavra.
O silêncio voltava agora à casa. Sentavam-se no sofá e ficaram fixando um ponto no infinito. Uma sensação de “déjà vu” arrepiava as espinhas de Paulo e Fernando. Verónica pensava agora, sem saber porque lhe apareceu aquela ideia, no acidente que havia tido.
Abraçada a Fernando, lembrou-se do seu filho e voltou ao carro em chamas. Paulo já estava consciente e gritava pela mãe. O cinto não saía. Verónica entrou por um lado e o marido, que a havia seguido, entrou pelo outro. Num acto de amor e confraternização, os três deram as mãos e ficaram calmos e imóveis dentro do carbonizado veículo. Atingindo os seus limites, o carro explodiu levando toda a família pelo quente e mortífero fogo que se elevava no céu.
Verónica abriu os olhos e o seu filho estendia-lhe a mão. Ele e o pai já levitavam e pretendiam ser com ela felizes no local que os chamava há muito, mas que sempre se recusaram a pertencer. Faziam agora a fácil e alegre viagem, de mão dada e sorriso na cara, que os iria levar pelo caminho dos céus.

 

publicado por elrey às 22:35

hum... interessante.

Um conto que nos faz a pensar... devido ao seu mistério...

Gostei
Pegadas no Desconhecido a 6 de Setembro de 2008 às 15:23

Porque quando a Lua se põe, tudo escurece e restam apenas ínfimos pontinhos brancos para nos iluminar. [Avisam-se os mais distraídos que todos os textos aqui publicados são pura ficção, incluindo os que se encontram na 1ª pessoa. Obrigado]
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