Quando a Lua se Põe

Dezembro 26 2009

Tenho este blog para mostrar à comunidade o que tenho feito e para que possa ter as opiniões decorrentes da leitura do que publico, não para aturar faltas de respeito nos comentários que em nada são construtivos e que só têm como objectivo denegrir os intervenientes. 

Por isso agora os comentários neste blog são moderados, sendo apagados aqueles que nada acrescentam ao que aqui faço. Aceitam-se todo o tipo de comentários que possam criar uma discussão saudável e que contribuam para o desenvolvimento pessoal e cognitivo dos intervenientes. Eu próprio ao reler o que escrevo encontro erros e faltas de coerência e coesão de texto que não vira quando escrevi pela primeira vez, por isso é normal que também os encontrem, e agradecia até que mos indicassem objectivamente, mas faltar ao respeito e criticar para rebaixar e sem qualquer fundamento não tolero.

 

Para esclarecimento de algumas pessoas, não existem mais nomes próprios completos nos textos fictícios, e para não surgirem mais confusões passo a assinar com o meu nome próprio.

 

[Aliás, reparei agora que o meu nome próprio sempre esteve à vista de todos, não sei porque reclamaram com o nickname...]

 

Obrigado, e bom ano novo.

Pedro Canelas

publicado por elrey às 18:22

Dezembro 02 2009

 Chegando a casa fui directamente à sala e virei-me de frente para a janela, e sentado fiquei observando quem passava, à procura de uma forma de me abstrair das mágoas da minha própria vida. Morava sozinho numa casa térrea e pequena, tal como todas as outras da zona. E a minha rua era muito movimentada. Todos os dias por lá passavam centenas de pessoas a pé e de carro, indo e voltando dos trabalhos, e mesmo aqueles que nada faziam roubavam algum do seu inutilizado tempo para passar por aqui.

Aquela rua era como um pequeno mundo. Desde grandes casos de amor a grandes tragédias, já tudo tinha acontecido, e aquele dia parecia mais um dos muitos que se repetiam continuamente. Desde há algum tempo que nada de extraordinário lá acontecia, mas embora aquele dia parecesse mais um daqueles, adivinhavam-se surpresas. O rapaz da mercearia já havia passado várias vezes junto à minha janela, apressado e com cara de caso. A Dona Josefina, que é sempre muito simpática, passou por mim com tanta pressa que nem me viu.

Não sabia minimamente o que se passava, dado ao curto ângulo de visão da minha janela. Era comprida e baixa, de forma a responder às minhas necessidades, mas a porção de rua que eu podia ver era muito pouca, comparado com a sua imensidão. Até minha mãe, ignorando-me, passou por mim com um comportamento idêntico aos restantes.

Tinha decidido ir à rua, mas faltava-me a coragem. A dificuldade do caminho impedia-me de o fazer muitas vezes repetindo, por isso, esta actividade de estar à janela todas as tardes. Mas eu tinha de saber o que se passava. À primeira pessoa conhecida que pela minha janela passou, abri-a e perguntei o que estava a acontecer, porque é que todos estavam tão preocupados.

Não te preocupes, não é nada de mais.

Fiquei na mesma. Mas tentando-me esticar e espreitar o resto da rua, vi um grande ajuntamento de pessoas em volta da barbearia do Senhor Olívio, incluindo as que haviam passado por mim sem me falar. Decidi então agir, e enchendo-me de coragem dirigi-me até à entrada e abri com dificuldade a porta emperrada. Saí e respirei o saturado e suado ar da rua.

Dirigindo-me até à barbearia, todos olharam para mim e baixaram a cabeça. Tentei penetrar pela barreira da multidão de forma a saber o que se passava, ainda incomodando e até magoando algumas pessoas, mas consegui entrar na loja. Estava deserta. O senhor Olívio estava sentado numa das cadeiras, com a cabeça pendida, inconsciente. Era ele o alvo das atenções, e ninguém sabia se estava vivo ou se estava morto, mas também era capaz de entrar na barbearia. Aproximei-me e, mesmo não entendendo nada do assunto, concluí que ainda respirava e tinha pulsação.

A partir dessa altura, todos se aproximaram e alguém chamou a ambulância. Ficámos todos junto a ele, esperando pela ajuda médica, e quando esta chegou e o senhor Olívio foi levado, tudo se acalmou. As pessoas começaram a dispersar e a rua começou a voltar ao normal. Mas havia uma coisa que me intrigava: porque é que andavam todos tão preocupados mas ninguém se aproximou do barbeiro? Nunca ficaria a saber.

Olívio sobreviveu e continuou a sua vida normal de barbeiro. A rua continuava na mesma, e eu continuava a observá-la pela janela. Mas um dia fui interrompido pela campainha. Na minha casa a campainha nunca tocava, pois as únicas pessoas que lá entravam era eu e a minha mãe, já idosa, que tinha a chave. Abri, e não foi a minha surpresa quando vi o senhor Olívio.

Venho agradecer-te o que fizeste por mim.

Não deixei de me sentir lisonjeado. Convidei-o para entrar e conversámos toda a tarde. Nunca tinha tido grandes conversas com ele, e acabei por descobrir que, ao contrário do que demonstrava no local de trabalho, até era uma pessoa divertida. Nasceu assim uma grande amizade. E era mesmo de amizades que eu estava a precisar, pois quando estou sozinho a pensar, a única coisa que me vem à cabeça é o acidente que me pôs nesta cadeira de rodas.

publicado por elrey às 22:48
Tags: ,

Julho 13 2009

Reactivo este blog com um poema, fresquinho. Sim, é um bocadinho "piroso", mas foi o que me saiu... (Ah, e não tem nome)

 

 

Cabelo a descair

Ombros imponentes

Teus lábios a rir

O frio que tu sentes.

 

Minhas pernas a arquear

Meus braços a fechar

Teu corpo junto ao meu

O maior amor que alguém jamais conheceu.

 

Calor no olhar

Sentimento nas mãos

O tempo a parar...

 

Trinta segundos sem fim

que passaram rápido demais

Quero-te novamente aqui.

Quero mais.

Não te vás embora.

Nunca.

Amo-te.

 

publicado por elrey às 21:53
Tags: ,

Setembro 13 2008

 

Para Yuri, a vida estava correndo bem em Portugal. Tinha vindo da Rússia sozinho para estabilizar a sua vida, mas toda a família havia ficado na terra natal. Vestiu-se com a habitual farda de trabalho, uns trapos sujos e rotos, e saiu de casa.
Chegou à obra onde trabalhava, em que era pedreiro, e o seu mestre-de-obras esperava por ele. Subiu até ao andar que lhe competia, o décimo e continuou o que havia deixado por fazer no dia anterior. Até à hora de almoço mais ninguém haveria de subir ao seu piso, o mais alto até ao momento.
Sentiu uma presença atrás de si. Olhou mas ninguém viu. Continuou trabalhando, mas alguém lhe toca no ombro e Yuri assusta-se. Salta para trás e fica à beira da queda. Um homem todo vestido de preto apresentava-se à sua frente. Estava pálido e aproximava-se do pedreiro sem dizer uma única palavra.
O homem encostou a sua boca ao ouvido do russo e sussurrou. Momentos depois Yuri chega-se para trás, tropeça num ferro e cai até encontrar terra firme. Lá em cima, o outro desvanecia-se, após fazer o sinal da cruz.
Duarte fazia aquilo todos os dias. E o seu trabalho era simples: todos os dias percorria o país anunciando as pessoas dos seus últimos segundos de vida. Morrera há cinco anos e desde aí que lhe competia a função de Morte. O anúncio da morte.
Sara saía do trabalho. Tal como fazia todos os dias, entrou no carro e andou algumas centenas de metros até ao centro comercial onde ia fazer as compras do dia. De volta com os sacos, voltou a entrar para o seu veículo. Mas sentiu-o frio. O dia estava quente, mas o interior do seu automóvel estava frio.
Duarte está sentado no banco traseiro. Não olha para Sara e ela não o vê. Seguindo caminho para casa, ainda tinha de apanhar a auto-estrada, pelo que conduzia rapidamente.
A condutora sentiu uma mão no seu ombro. Trava bruscamente e derrapa no asfalto. Fica parada na estrada, a olhar para trás, mas não está lá ninguém. Prossegue a marcha assustada, e começa a olhar mais vezes pelo espelho interior.
Já seguia na auto-estrada e estava esquecida do que havia acontecido. Mas ao olhar novamente pelo espelho, uns olhos negros carregados fizeram-na travar novamente. Os olhos não lhe eram desconhecidos. Aliás, eram conhecidos demais. Era Duarte, o seu marido que morrera há cinco anos.
Ele passa para o banco da frente. Sara é obrigada a avançar pelo trânsito, mas não tirou os olhos do defunto. Conseguia conduzir sem olhar para a frente, pois estava-o mirando fixamente. A mesma reacção teve ele. E ficaram-se fitando durante alguns minutos. Mas ela continuava conduzindo, como que movida por uma força maior.
Sara regressa à realidade e retorna na condução. Duarte continuava a olhá-la, sem pronunciar uma única palavra, acabando depois por quebrar o silêncio.
Não queres saber porque é que eu estou aqui?
Tu não estás aqui. Eu estou sozinha neste carro. – convencia-se ela – Tu morreste e não podes estar aqui, sou eu que estou a alucinar.
Vais morrer agora mesmo.
Sara deu uma guinada e quase embatia num carro que seguia à sua frente.
Mas eu sou... fui... era a tua mulher! Não me podes fazer isto!
Não sabes o que me custa, mas não sou eu que escolho quem morre. Só tenho o poder de anunciar e certificar-me que o trabalho fica feito.
Duarte não conseguia reagir. Não conseguia concluir o acto final que ditaria a morte da mulher. Mas tinha de ser.
Os travões deixaram de funcionar e o volante tornou-se leve demais. Sara queria conduzir direito mas não conseguia. Nada respondia e ela estava nas mãos do carro. Começou a voltar o volante para ambos os lados, sem resposta. Até que o volante respondeu. O automóvel virou completamente para a direita e voa sobre os vales. Embate na terra dura, longe da estrada.
                                                                                                
2 anos antes, Sara saía de casa e dirigia-se a pé para o centro de emprego, mas é interceptada por Duarte.
O que é que fazes aqui? Estás proibido de te aproximar de mim, ou não sabes que a tua doença é perigosa? Pensava que ainda estavas no hospital.
Dizem que estou curado. Preciso de falar contigo.
Dirigem-se os dois para um beco ali perto. Duarte, no seu estado normal, saca de uma navalha e espeta no abdómen da ainda sua mulher, e foge.
 
O carro continuava no vale, duas horas após se ter despistado. Ninguém o via e lá dentro permaneciam os ocupantes. Glória, a condutora do carro e Duarte, um doente psiquiátrico com uma dupla personalidade que tinha alucinações, nascida há cinco anos atrás que fez com que fosse internado e dado como morto para muita gente.
publicado por elrey às 17:33

Setembro 08 2008

 

O fumo cinzento, contrastado com o incolor ar da rua, era cortado pelo autocarro nº32, que seguia quase vazio, vindo do Ribatejo. De dentro saiu apenas uma pessoa. Rafael Pires vinha da singela aldeia da Correlheira, e procurava uma nova vida na capital, junto da irmã, que já lá estava há dois anos. Não conhecia mais ninguém nem nunca tinha estado em Lisboa.
Olhou para tudo o que tinha de olhar, e seguiu caminho sem saber para onde ia. O que ele sabia é que tinha de ir para o hotel onde estava Sílvia, sua irmã. Mas as pessoas mostravam-se antipáticas. Tentou perguntar a uma senhora sentada no banco da avenida, mas esta reagiu violentamente e Rafael ganhou uma ferida na testa. Perguntando a um rapaz novo o caminho para o hotel, ficou apenas sabendo o caminho do pé dele ao seu traseiro.
Já quase a desistir e após ter percorrido quilómetros naquela avenida, olha em frente e vê, em grandes letras azuis suspensas por ferros ferrugentos no topo de um alto prédio, o nome do hotel por que procurava. Nem precisou de andar muitos metros para chegar à porta do edifício, perguntar por Sílvia, subir as grandes escadarias de madeira de carvalho que o levavam ao 1º andar onde se encontrava a sua irmã e aconchegar-se confortavelmente na cama dela.
Ela estava saindo do banho e ele pôde, pela primeira vez, observar quase totalmente o seu esbelto corpo, resultado das rigorosas dietas feitas na capital. Sílvia havia saído da sua aldeia para estudar Nutrição e Alimentação. Rafael recordava-se dela sempre como uma rapariga gorda, sempre gozada por todos. Para ele, ela havia sido sempre uma irmã mais velha a quem, no capítulo da alimentação, nunca devia seguir o exemplo. Mas o seu corpo agora encontrava-se perfeitamente definido e era alvo de cobiça e inveja.
Ao vê-la sair do banho, Rafael, completamente suado, correu para o duche e refrescou-se com muito prazer. Aproveitou as massagens que a banheira do luxuoso hotel oferecia, e relaxou durante meia hora enquanto Sílvia se preparava para sair. Desde que tinha chegado, ainda não tinham dirigido a palavra. O cheiro a suor de Rafael quando chegou era tal que a irmã quando o viu fez apenas uma careta e um sinal apontando a casa de banho.
Após se terem os dois preparado para ir jantar, saíram e começaram aí a conversar sobre tudo. O que o mais indignava era onde é que ela ia buscar dinheiro para pagar a conta do hotel, que devia ser dos mais caros da cidade. Não obteve resposta.
Jantaram no restaurante do hotel, e só aí é que Sílvia ficou a saber as razões que levaram o irmão a vir para a capital. Vinha apenas em busca de novos ares, novas pessoas. Não procurava continuar os estudos, pois nunca tinha sido muito bom aluno, procurava sim libertar-se da sua aldeia envelhecida. Foi no restaurante que ele ficou a conhecer o que passaria a ser o seu único amigo em Lisboa. Chamava-se Rodrigo e era empregado do bar do hotel. Fora-lhe apresentado pela sua irmã, que parecia já ter uma relação muito íntima com ele.
Os meses passaram e Rafael intensificou a ligação que tinha com Rodrigo. Tornaram-se grandes amigos, e eram sobretudo os grandes companheiros nas noitadas. Mas, em certas noites, o empregado do hotel parecia ter atitudes estranhas para com ele. Chegava a sair de um local a meio da noite, sem dizer nada, após receber um telefonema.
Mas começava a tornar-se frequente demais.
Rodrigo e Rafael estavam sozinhos no quarto de Sílvia. Esta encontrava-se na universidade, e os amigos estavam combinando todo o plano para a noite. Rodrigo é chamado à recepção e Rafael aproveita o momento para descansar um pouco. Mas um telefone toca e não é o dele. O amigo havia-se esquecido do telemóvel, mas como vê no visor o nome de sua irmã, atende de imediato.
Estou, Rodrigo? Olha, preciso urgentemente que me venhas buscar aqui à casa do Bruno. Ele insiste em não pagar e eu quero que lhe dês uma tareia. – o telefone desliga-se imediatamente sem Rafael ter tempo de pronunciar nenhuma palavra.
Sabia quem era Bruno. Já se havia cruzado com ele algumas vezes e já ouvira Rodrigo dizer a Sílvia onde era a casa dele. Pegou nas suas coisas e saiu.
 Agora já conhecia bem as ruas de Lisboa. Sem saber nada do assunto que o levava a fazer aquela viagem, percorreu todo o caminho de memória, pois nunca o tinha feito, seguindo-se apenas pelas indicações que se lembrava de ter ouvido pelo amigo.
Chegou a uma casa térrea e antiga, perto do Chiado. Tinha a fachada em azulejo verde e a porta de entrada castanha, com ferros pintados de branco. Da rua conseguia ouvir gritos vindos de dentro. A voz era-lhe muito familiar.
Bate à porta com receio. Esta é aberta rapidamente e a Rafael surge a imagem de sua irmã, quase nua e despenteada. O batom de sua boca estava borrado e os saltos altos dos seus sapatos estavam partidos. A Sílvia não sobrou nenhuma reacção e, levantando o top descaído, sai a correr pela rua fora, com a mala na mão. Bruno olha para Rafael e encolhe os ombros.
Caminhando pelas ruas de Lisboa com a cabeça em baixo, o rapaz pensou no que faria a seguir. Seguido pelo instinto, segue até a estação dos comboios, e compra um bilhete para a estação mais próxima da Correlheira.
 
 
As verdes colinas e o azul do céu contrastavam com o escuro e sombrio ambiente no comboio. Rafael seguia para sua casa, e bem no fundo, sentia-se contente por rever a família. Não pensava muito, para não se lembrar do triste acontecimento que presenciou na capital. Não mais viu a irmã nem Rodrigo, nem eles o tinham tentado contactar. A viagem já seguia longa, e nunca tinha estado tão ansioso por ver os pais, nem nunca esperara ter tantas saudades da sua aldeia.
O comboio parou e, sem perder tempo, sai da estação e vai apanhar um autocarro para a Correlheira. Para seu espanto, o motorista não sabia onde ficava, e aparentemente havia sido retirada do mapa das carreiras. Seguiu para a localidade mais próxima, e daí podia seguir a pé. Na zona predominava cada vez menos o verde e cada vez mais o branco das construções. Havia cada vez menos agricultores e cada vez mais empresários e lojistas. Mas no meio de tanta construção, a paragem de Rafael era num local completamente isolado. O único desenvolvimento do local era a estrada por onde ele tinha seguido. Conhecendo os caminhos como ninguém, segue a estrada e vai pelo local correcto que ia ter à Correlheira.
Chegando onde começaria a sua aldeia, não vê nada para além de arbusto. Arbusto, ervas secas e pó, muito pó entranhado no chão e no ar que imediatamente se pegou à sua pele. A antiga placa que sinalizava o início da localidade fora arrancada e haviam ficado os dois ferros, já ferrugentos, que o fizeram lembrar o momento em que chegara a Lisboa.
Das casas restavam apenas as paredes exteriores. Já não havia telhados e as ruas estavam repletas de cobras mortas e ratos. Ele estivera fora poucos meses. “Como foi isto acontecer?”, questionou-se. Mas nesse momento ouve um som melódico. Parecia uma flauta. Mas quando se mexia, o som parava. Precisava de estar parado alguns momentos para o som recomeçar. Assim seria difícil descobrir a sua origem.
Havia uma casa que parecia manter-se intacta. Estava mesmo à sua frente e não se conseguia lembrar de quem seria. Era toda em pedra e as telhas eram fortes e grandes. Aproximou-se. Procurou por algo. Inspirou o sujo e quente ar que rondava a casa. E alguém abre a porta.
Uma velha e áspera mão soltava à vista pois era a única que a idosa tinha. E apesar de Rafael ter vivido naquela aldeia durante toda a sua vida até ter partido para Lisboa, ele não se recordava daquela cara nem de nenhuma senhora sem uma mão.
Não queres entrar filho?
Ele aceitou, após de recear um pouco. A casa por dentro estava perfeitamente intacta. Aliás, a casa estava muito melhor do que as restantes casas costumavam ser. Uma entrada fabulosa, digna de uma grande mansão, seguida de uma sala enorme acompanhada de uma lareira digna de um rei. Bem perto podia-se ver uma banheira de hidromassagem. Mas não foi aí que Rafael centrou a sua atenção. Uma pequena flauta antiga estava pousada sobre uma mesa. Seria esse o som que tinha ouvido quando estava na rua observando.
A senhora era muito simpática. Pediu-lhe para se sentar e ofereceu um chá. E começaram a conversar, mas tinha de começar pela questão que mais fazia a ele próprio nos últimos momentos.
O que é que aconteceu a toda a gente? Onde está a minha família?
Olha filho, a isso eu não te sei explicar. Eu tenho um grande problema neurológico que me impede de ter recordações longas. Só tenho lembranças de há cerca de um mês, no máximo. Pelo que sei sou a única moradora aqui.
Rafael mostrava-se preocupado com a senhora. Nem sabia o nome dela, mas já sentia por si uma grande afinidade. Como já estava a anoitecer, decidiu sair para aproveitar a última luz do dia para investigar.
O pó da rua parecia aumentar à medida que o tempo passava. Tornava-se assim mais difícil caminhar sozinho, mas mesmo assim conseguiu encontrar a sua casa.
Estava completamente assolada. Restavam apenas as paredes mais resistentes, que estavam repletas de poeira. Na porta, que ainda se mantinha intacta, estava um papel branco com uma cruz negra. Já muito nervoso, Rafael corre para o cemitério.
Nunca ele tinha visto aquele cemitério tão cheio de campas. Todas elas eram térreas, e facilmente encontrou as que ele mais esperava não encontrar. “À memória da família Pires, que será recordada como todas as outras pelos que cá ficaram”. Seguido desta citação estavam os nomes dos elementos de toda a família: os seus pais, os seus dois irmãos mais novos, de dez e oito anos, e a sua avó. Todos tinham sido sepultados juntamente.
Rafael estava cada vez mais nervoso. Em busca de um lugar para ficar, acaba por dormir na sumptuosa casa da senhora maneta. Não ficou a saber o seu nome. Dormiu numa cama grande, repleta de almofadas e a madeira de torneados trabalhados. Mas não chegou a adormecer. Passou toda a noite acordado pensando no que tinha visto.
Acordou com a mulher maneta levando-lhe um café quente à cama. Já desperto, levantou-se e prepara-se para sair. “Preciso de saber mesmo o que se passou”, foi o que disse à idosa.
O pó na rua era cada vez maior. Passado um minuto de exposição, os seus olhos lacrimejavam, mas não só de irritação à poeira, mas também da mágoa de toda a sua aldeia estar destruída. O pó era tal que nem viu alguém passar atrás de si. Momentos depois, a maneta chama por ele.
Uma carta tinha-lhe sido enviada. Sem saber como o podiam ter encontrado ali, abre o envelope. O pozinho que ainda residia nos seus olhos impediu-o de conseguir ler. Pediu à sua anfitriã para o fazer.
Informamos o Sr. Rafael [nome censurado] do falecimento da irmã, Sílvia [idem], no dia 12 de Abril de 2008, pelas 11 e 20 da manhã, no Hospital de Santa Maria, vítima de paragem cardio-respiratória, consequente de um atropelamento. Declara-se assim informado o único familiar próximo da falecida.”
Rafael nem queria acreditar. A irmã tinha sido atropelada mesmo após se ter encontrado com ele. Ele havia-a ignorado e agora ela tinha morrido. Decide sair outra vez à rua, mas o pó era ainda mais. Desta vez é que estava mesmo tudo imperceptível. Queria chorar e não conseguia. A sua depressão aumentava e voltou a entrar em casa, e deparando-se com um cenário magnífico. A parede oposta da sala era completa de vidros, que davam para uma fantástica paisagem. Nunca tinha reparado naquele local maravilhoso no tempo que lá esteve. Procurando a saída para o local, apercebe-se também que lá não havia nenhuma poeira.
O cenário era de facto fabuloso. À sua frente estava uma cascata que dava a um grande lago lá em baixo. As rochas preenchiam uma ravina mesmo abaixo dele. Todo o espaço era também ocupado por árvores, arbustos e ervas. Estava numa floresta, de facto, e podia respirar o ar puro da natureza. Olha para trás e vê o mesmo. Uma floresta interminável. A casa havia desaparecido, e inconscientemente Rafael estava contente por isso. Pertencia agora à natureza e nada mais, e sentia-se infinitamente alegre.
Mas para pertencer totalmente à natureza faltava-lhe uma coisa. Fazer mesmo parte dela. Chegando-se à frente e inclinando-se na ravina, ficou à beira do abismo. Mas continuava feliz e sabendo onde estava, deu um passo em frente. Respirou fundo na queda e embateu sobre a água com uma força fatal, mas com um sorriso na cara.
 
 
Epílogo
Com a sua única mão, ela arrumava as suas coisas. A flauta antiga, sua grande aliada, fora enterrada para sempre e Isilda, assim se chamava, vestia a sua melhor roupa para partir para um mundo melhor. Com um sentimento de dever cumprido, deita-se na cama e espera que a morte a venha buscar, e espera também que a aldeia da Correlheira não tenha deixado descendências, pois teria de recomeçar tudo de novo.
 

 

publicado por elrey às 00:15

Setembro 05 2008

 

Duarte era uma pessoa normal. Mas após a sua morte, foi eleito para ser a Morte personificada. Tinha agora a tarefa de anunciar a morte às pessoas e encaminhá-las. Mas tudo muda quando a Duarte é dada a missão de “matar” a pessoa mais importante de quando era vivo: a sua mulher. Vendo-se agora num dilema, ele terá de decidir!
publicado por elrey às 22:41
Tags:

Setembro 05 2008

 

Paulo chegava a casa. Tinha voltado da escola, e vinha com muitas novidades para contar à mãe, que esperava por ele na sala. O pai estava fora, em viagem, e não voltava tão cedo. Fazia agora companhia à sua progenitora.
Moravam num apartamento magnífico. Situava-se no centro da cidade, com vista para o mar e era rodeada por prédios igualmente fantásticos. O deles tinha as paredes exteriores pintadas de amarelo-torrado, com grandes janelas de vidros reflectores e brilhantes.
Enquanto falava com a sua mãe, Verónica, sobre o seu dia de aulas, alguém tocou à porta. Paulo levanta-se rapidamente do sofá, dirige-se à entrada e abre a porta sem sequer espreitar nem perguntar quem seria. No momento que a destranca, esta é empurrada com toda a força para a frente embatendo violentamente na face do rapaz. Três homens encapuzados entraram dentro da casa, rendendo imediatamente Verónica com pistolas e facas.
Os indivíduos encaminharam mãe e filho até ao quarto deste, fechando-os lá dentro enquanto esquadrinhavam todos os cantos da casa. Fechados no quarto e sem qualquer comunicação com o exterior, Verónica e Paulo desesperavam. Ele matutava, imaginando uma forma de saírem dali ilesos. O telefone não podiam usar pois essa foi a primeira precaução dos assaltantes: desligá-lo. Os telemóveis tinham sido deixados na sala. Provavelmente os assaltantes já os teriam guardado. Não podiam sair pela janela pois moravam no 10º andar.
Nenhum dos dois sabia qual a verdadeira intenção dos assaltantes. Passados alguns minutos, um deles, com a cabeça destapada, foi ao quarto buscar Verónica e levou-a sem abrir a boca. Voltou a trancar a porta. Paulo ficava agora sozinho, ouvindo apenas os ruídos vindos da sala. Passado algum tempo, ouve um grande grito da mãe e um tiro logo de seguida. Esperando uns segundos, ouve outros cinco tiros seguidos, disparados sem piedade. E tudo se cala.
Passadas três horas, Paulo continua sem ouvir nenhum som vindo do exterior. Deverão ter-se ido embora. Mas onde estaria a sua mãe? Tenta arrombar a porta, mas não consegue devido aos seus frágeis dez anos. Tendo herdado a inteligência da mãe, consegue abrir a porta com um clipe e sai a toda a velocidade para a sala, onde não vê absolutamente nada. Tudo estava normal, como se ali nada tivesse acontecido.
Procura por toda a casa algum sinal de presença, mas tudo está como estava. Pesquisa por algum ínfimo pormenor deixado por quem ali tinha estado, mas nada encontra. Tenta abrir a porta que o leva ao exterior, mas esta encontra-se fechada. Já desesperado, procura pela chave dessa porta por todos os cantos da casa, mas não a encontra em lado nenhum. Decide relaxar e senta-se no sofá pensando e fazendo o tempo passar.
As horas passavam e já era de noite. Paulo havia adormecido e na casa reinava um profundo silêncio apenas interrompido pelo jovial ressonar do jovem. Pelas janelas entrava a rara luz da noite fria de Inverno, e a sala passava a respirar o nervoso ar do rapaz que agora acordava. Levantou-se repentinamente e foi verificar, sem sucesso, se a porta de entrada abria.
Encontrava-se sozinho. Era só ele e a escuridão, par a par, ambos esperando que uma nova e brilhante luz os iluminasse. Voltou a adormecer na sala, sendo acordado apenas na manhã seguinte pelo alegre cantar dos pássaros. Havia sonhado o momento mais marcante da sua vida: o dia em que teve o acidente de carro que o pôs entre a vida e a morte.
Estavam numa auto-estrada grande e aparentemente sem fim. Era de noite e circulavam muito poucos carros. Paulo mantivera-se acordado, olhando fixamente para o asfalto, não lhe escapando um único pormenor do que lá passava. Mas não tão atento estava o pai, que não vendo com antecedência um cão que se atravessava naquele momento, este fá-lo virar bruscamente o carro e atirá-lo para fora da estrada, capotando repetidamente.
Voltando à realidade, sentou-se e ficou na mesma posição por um momento. Pensava no que havia de fazer, mas quando esperava que nada o faria voltar à realidade, a porta abre-se. Um clarão encadeou-o impedindo de ver quem entrava. O vulto não lhe era desconhecido: era seu pai!
Havia voltado mais cedo da viagem e estava alegre. Mas a sua alegria terminou ao saber do sucedido. O pai, Fernando, havia decidido ir à polícia. Preparam-se para sair, mas a porta estava novamente trancada. Fernando procurou pelas chaves com que a tinha aberto, mas estas haviam desaparecido. O seu porta-chaves continha-as todas, menos a da porta de entrada. As suas pernas fraquejaram e sentou-se no chão. Paulo voltou à sala, mas Fernando ficou imóvel durante vários minutos. Voltou ao sofá passados momentos, mas pai e filho não voltaram a dirigir a palavra.
Voltava a anoitecer, e ambos haviam ficado calados durante todo o dia. Mantiveram-se sentados, olhando para um ponto fixo da parede colorida da sala. A televisão tinha ficado desligada e o assunto do pensamento dos parentes havia sido comum: nada. Não pensaram em nada, mantendo a mente aberta e isolada. E embalados pelo escuro, adormeceram na posição que tinham adoptado todo o dia.
Paulo foi novamente acordado pelo cantar dos pássaros. Por esta altura já se encontrava deitado no verde tapete da sala e seu pai mantinha-se precisamente como havia adormecido, sentado e direito, já com os olhos abertos, olhando o infinito. Não se apercebeu do levantar de Paulo. O seu pensamento estava, desde que tinha acordado, no acidente que a família tivera há quatro anos atrás.
O carro estava voltado ao contrário e deitava fumo livremente. Fernando era o único que se mantinha consciente. Olhando em redor, viu a sua família sem reacção e esvaídos em sangue. Prevendo que o carro iria explodir, tenta tirar a mulher e o filho do carro, mas sem sucesso. Verónica acorda, e olha assustada para o marido. Olham-se apaixonadamente e, como que involuntariamente e com muita calma, conseguem ambos tirar os seus cintos e sair do carro, que já se encontrava em chamas. Abraçam-se, mas Paulo continuava lá dentro. Verónica reage impulsivamente.
À frente de Fernando surge um copo. Tirando finalmente os olhos da parede, olha para o filho e aceita a água que este oferece. Bebe-a e volta ao presente. Trocam olhares de cumplicidade e confiança, e dão a mão apertando com força sem desviarem o olhar por um momento.
Ouvem correr nas escadas. Sem tempo de reacção, alguém abre a porta da casa e entra fechando-a apressadamente. Era Verónica. Paulo corre para os seus braços, mas Fernando vai directamente à entrada. A porta estava novamente fechada. A chave com que Verónica tinha aberto a porta naquele momento desaparecera da sua mão.
Onde estiveste? – pergunta Paulo.
Não sei – Verónica mostrava-se assustada – Fui levada para um armazém escuro, e agora deixaram-me aqui à porta de casa sem me terem dito uma única palavra.
O silêncio voltava agora à casa. Sentavam-se no sofá e ficaram fixando um ponto no infinito. Uma sensação de “déjà vu” arrepiava as espinhas de Paulo e Fernando. Verónica pensava agora, sem saber porque lhe apareceu aquela ideia, no acidente que havia tido.
Abraçada a Fernando, lembrou-se do seu filho e voltou ao carro em chamas. Paulo já estava consciente e gritava pela mãe. O cinto não saía. Verónica entrou por um lado e o marido, que a havia seguido, entrou pelo outro. Num acto de amor e confraternização, os três deram as mãos e ficaram calmos e imóveis dentro do carbonizado veículo. Atingindo os seus limites, o carro explodiu levando toda a família pelo quente e mortífero fogo que se elevava no céu.
Verónica abriu os olhos e o seu filho estendia-lhe a mão. Ele e o pai já levitavam e pretendiam ser com ela felizes no local que os chamava há muito, mas que sempre se recusaram a pertencer. Faziam agora a fácil e alegre viagem, de mão dada e sorriso na cara, que os iria levar pelo caminho dos céus.

 

publicado por elrey às 22:35

Agosto 29 2008

 

Cada vez via menos e o meu ângulo de visão era cada vez menor. Em volta só via negro, e tinha um curto círculo redondo que correspondia à minha diminuta visão. Estou há cerca de 5 meses à espera da minha primeira consulta de oftalmologia no hospital público. As nossas dificuldades financeiras impedem-me de recorrer ao privado.
Eu trabalho como jardineiro da câmara e a minha mulher está desempregada. Temos dois filhos, de dez e oito anos, que são brilhantes alunos, e ambos herdaram as minhas melhores qualidades.
Sempre tive diabetes, desde que me lembro. Sou insulino-dependente e todos os dias tenho que me injectar. Toda a minha família sofre com isso, e agora ainda mais que estou quase cego.
O dia de hoje foi mais um daqueles. A minha pouca visão faz com que o meu trabalho fique mal feito, e de acordo com o meu patrão, arrisco-me a ser despedido. Só queria mesmo chegar a casa e dormir toda a noite descansado, e também a manhã, pois tenho folga todo o dia.
Acordei com a Rute, minha mulher, aos gritos.
Recebeste uma carta do hospital! Parece que é desta que te vão receber!
Abri-a com pressa e li o que dizia. Tinha consulta marcada para duas semanas depois, precisamente para o dia do casamento da minha irmã, e à mesma hora. Não me podia recusar, tinha mesmo de ir.
As duas semanas passaram e a minha vista piorou muito. Já muito pouco vejo e estou agora desempregado. Passo todo o dia em casa, deitado, e já nem posso conduzir. A Rute levou-me ao hospital e eu fui atendido por um atencioso médico que se preocupou muito comigo. Pena não ter podido ver a sua cara.
Foi-me diagnosticado um glaucoma, que me ia reduzindo a visão à medida que o tempo passava, provocado pela diabetes que sofria. Ao que parece uma dose de insulina por dia não era suficiente. Tinha de ser operado de urgência. A mesma urgência que tinham as cerca de cem pessoas que estavam à minha frente aguardando uma cirurgia. Teria de esperar pelo menos duas semanas. Mais duas dolorosas semanas.
Ainda consegui chegar a tempo do copo-de-água. A minha irmã e o meu cunhado estavam felicíssimos. A sua beleza resplandecia para além da minha limitada vista. Apesar de não poder ver grande parte do casamento, aproveitei-o como podia.
Chegando a casa, deitei-me. E assim permaneci durante as duas semanas para a cirurgia, pelo menos. Mas as duas semanas passaram e nenhum sinal do hospital. A minha mulher tentou saber se já estava marcada, mas nada obteve. E assim as semanas continuaram passando, sem ter notícias algumas, até eu atingir a cegueira total.
A minha vida tornou-se ainda mais monótona. Nada via e a escuridão apoderava-se da minha vista. Ouvi a Rute trazer-me o pequeno-almoço à cama, o que me animou o dia. Ela falava comigo, mas eu não a ouvia. Estava a habituar-me à ideia de estar cego, e sem a ajuda dela, tentava encontrar a comida. Pelo cheiro já sabia que era uma bela sandes de presunto e um copo com sumo de laranja.
Comi e voltei a deitar-me. Fiquei toda a manhã sentindo o cheiro de minha mulher na sua almofada, e isso dava-me prazer. Levantei-me de tarde e tentei ir até à cozinha aos apalpões. Estava sozinho em casa. A Rute já havia arranjado emprego numa loja de roupa e os miúdos estavam na escola. Cheguei à cozinha, mas sem saber o que fazer, voltei para o quarto.
E fiquei sentado. Consegui chegar ao comando e ligar a televisão. Em todo o lado davam programas de tarde com apresentadores de voz estridente. A minha audição agora apurada não os aguentava. Esperei pelos meus filhos, que haviam de chegar a qualquer momento.
Não tinha comido a sandes de presunto toda e aproveitei aquele momento para o fazer. Procurei pela mesa de cabeceira e lá a encontrei. Mas não tinha acabado de dar a primeira dentada quando ouvi abrir a porta de entrada. Esta fechou-se e depois o silêncio. Ouvi passos muito leves caminharem e a aproximarem-se da minha posição.
Levantei-me, tacteando tudo à minha frente. Seguindo até à porta do quarto, parei. A pessoa estava mesmo ali à minha frente. Os passos pararam e senti na face um respirar ofegado e quente. Senti um toque nas costas puxar-me para a frente. Reagi brutamente e contorci-me todo no chão, pontapeando.
Mas a voz acalmou-me. Era Rute, que chegara mais cedo do trabalho e queria fazer-me uma surpresa, mas só acabou por me assustar.
Então, não comeste o almoço que eu te deixei? Eu disse-te, mas não me deves ter ouvido. Sabes que eu fico muito preocupada ao deixar-te aqui sozinho?
Ainda não estava recomposto do susto, por isso sentei-me na cama e procurei pelo almoço que afinal me havia sido deixado. Não o encontrei, e foi a minha mulher que acabou por me colocar à frente. Eu não gostava que me dessem a comida à boca, pois fazia-me parecer incapacitado. O resto do dia correu normalmente, com a ajuda da minha mulher, claro.
No dia seguinte, não havia escola. Os funcionários públicos estavam de greve, e até calhou mesmo bem porque a Rute tinha de ir com o Xavier, o meu filho mais velho, ao médico, numa consulta marcada há muito. E eu fiquei em casa com o Francisco, o mais novo. Brincámos todo o dia, e mesmo estando assim como estou, consegui-lo fazer divertir-se. Até foi mais divertido do que das outras vezes que tínhamos brincado.
Senti-a chegar a casa. Mas não senti o ar contente com a sua chegada. Ela levou-me para o quarto e sentou-me na cama. Mesmo não sabendo como ela estava, não encontrei nada de erótico na cena. Rute dizia-me agora que depois do médico tinha passado pela farmácia e que tinha comprado as injecções de insulina a dobrar, não porque eu precisasse, mas porque o Xavier tinha, afinal, herdado algo mau de mim.
publicado por elrey às 00:20
Tags: ,

Agosto 20 2008

 

Era uma vez uma menina rica. Chamava-se Margarida, tinha cinco anos, e morava com os seus pais numa grande casa. Era uma vez uma menina que tinha tudo o que queria.
O seu quarto estava recheado de bonecas, casinhas, brinquedos pequenos, brinquedos grandes, e não havia nada naquele quarto que não tivesse sido ela a pedir. Os pais faziam-lhe todas as vontades, e bastava dizer “Eu quero” que era logo atendida.
Estava de férias da escola e já no fim do Verão ia entrar para o primeiro ano. Aquela manhã tinha sido passada a brincar, e ao almoço devia ter tido a companhia da mãe, mas esta não apareceu, ficando sozinha com Olga, a empregada. Passou a tarde novamente a brincar, mas depois da hora do lanche, sentou-se na sala esperando pelos pais, que deviam estar a chegar.
O primeiro a chegar foi o seu pai, mas ela nem olhou, e continuou aguardando por sua mãe. O tempo passava e continuava sentada nos antigos sofás castanhos do século XIX, à espera.
Eu quero a minha mãe. – Margarida pedia, em tom triste, ao pai.
Já estava na hora de jantar e Helena, a sua mãe, tardava a chegar. No momento em que ela fixa os seus olhos no alto candeeiro de pé que estava ao seu lado esquerdo, olhando como se nunca o tivesse visto, Paulo, seu pai, recebe um telefonema e sai sobressaltado.
Eu quero a minha mãe.
Margarida não jantou e continuava querendo a mãe. Era a primeira vez que pedia alguma coisa mas não a tinha. De tanto tempo sentada no sofá, acabou adormecendo. Olga não teve coragem de a levar para o seu quarto e saiu, deixando-a sozinha.
Paulo regressou já tarde e encontrou-a deitada na sala. Sentou-se a seu lado e deu-lhe um beijo na face, que a acordou de imediato.
Onde está a mãe? Eu quero a minha mãe!
A mãe... – Paulo baixa a cabeça – a mãe não volta mais. Foi para um local melhor.
Olhou fixamente para o seu pai, com os olhos bem abertos que nesse momento se começavam a encher de lágrimas. Ela corre para o quarto e só de lá saiu quando o quente sol da tarde entrou pela sua janela, dois dias depois. Paulo já não se encontrava em casa.
O ar estava saturado e Margarida mal conseguia respirar. Inspirava-se o luto, a saudade. Expirava-se a tristeza e a desgosto. Sua mãe tinha tido um grave acidente e o funeral era hoje. Seu pai voltava a casa nesse momento e preparavam-se já para sair para a igreja. Lá iria estar toda a sua família.
As velas eram a única iluminação do espaço. Pessoas da sua família mas que pouco conhecia encontravam-se sentadas e a chorar. Colocou-se junto ao caixão e chorou. Chorou ao ver a mãe morta. Chorou ao ver os outros chorar. Mas chorou ainda mais quando deixou de ver seu pai. Ficou sozinha, olhando para todos os lados, soltando lágrimas de desespero.
Sem saber para onde ir, sentou-se nas escadas da igreja e ali ficou, até sair o funeral e todos se irem embora. Seguiu a marcha funerária até ao cemitério, e após a mãe ser sepultada, ficou novamente sozinha, mas agora com a companhia da mãe.
Deitou-se sobre a sua campa e ali dormiu toda a noite, até uma última lágrima cair sobre a fria pedra do chão, e, quando a Lua se pôs, tudo escureceu e apenas a estrela de sua mãe ali ficou para a iluminar.

 

publicado por elrey às 01:14
Tags: ,

Julho 27 2008

Este é o meu blog de contos. Aqui vou publicar os meus contos mais recentes.

 

O primeiro a ser publicado terá o nome deste blog e servirá também de introdução.

 

 

"Quando a Lua se Põe"

Margarida vive num mundo em que tem tudo o que quer, até ao dia em que quer a mãe, mas ela nunca mais irá voltar. Saudade e amor, no coração de Margarida.

Em breve neste blog!

 

publicado por elrey às 19:45
Tags: ,

Porque quando a Lua se põe, tudo escurece e restam apenas ínfimos pontinhos brancos para nos iluminar. [Avisam-se os mais distraídos que todos os textos aqui publicados são pura ficção, incluindo os que se encontram na 1ª pessoa. Obrigado]
mais sobre mim
Dezembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25

27
28
29
30
31


pesquisar
 
Lua Counter
Free Web Counter
Free Counter
subscrever feeds
blogs SAPO